Artigo de Opinião

Cura+, uma história que deve conhecer…

por Carlos Maurício Barbosa
Professor da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto

Acompanho a Associação Cura+ desde 2014, quando esta meritória iniciativa de voluntariado estudantil começou a ser idealizada por duas estudantes do Mestrado Integrado em Ciências Farmacêuticas (MICF) da minha Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (FFUP) – a Joana Carvalho e a Sara Baptista –, que me contactaram para expor as suas ideias.

Durante o estágio intercalar que haviam realizado em farmácia comunitária, a Joana e a Sara identificaram situações em que doentes crónicos, por razões económicas, não conseguiam aceder à medicação de que necessitavam. É uma situação que infelizmente existe em Portugal, aliás sempre existiu, mas que se agravou muito durante a crise económica que, nessa altura, fustigava o País.

Mas a Joana e a Sara não ficaram indiferentes ao problema. Isto foi algo que me tocou profundamente: de repente, tinha à minha frente duas jovens de 21 anos sensibilizadas com um problema social, sem dúvida muito relevante, e com uma vontade férrea de o enfrentar. Estava, pois, perante uma lição de vida que não podia deixar de apoiar – na altura, em simultâneo com as minhas funções de professor da FFUP, exercia o cargo de bastonário da Ordem dos Farmacêuticos (OF). E fiquei ainda mais tocado quando percebi que a Joana e a Sara eram a face de um grupo alargado de estudantes da FFUP que partilhavam a mesma preocupação e queriam encontrar soluções, visando garantir a medicação aos que dela necessitam, mas cujas dificuldades económicas não o permitem.

Esta situação configura um problema social de saúde pública, pois os doentes crónicos, quando não acedem à medicação de que necessitam, têm elevada probabilidade de sofrer eventos agudos (como acidentes vasculares cerebrais, no caso dos hipertensos), o que acarreta níveis elevados de morbilidade e mortalidade. Trata-se de eventos em grande parte evitáveis, em que o papel dos medicamentos é fundamental. Quando estas duas jovens estudantes conversaram comigo pela primeira vez falamos sobre todos estes contornos do problema e pude verificar que tinham ideias muito claras do que pretendiam fazer. Apenas precisavam de alguns conselhos sobre o modo de proceder e o caminho a percorrer para concretizarem o seu projecto de intervenção cívica e alcançarem os objectivos a que se propunham. Na altura ouvi-as com atenção, dei-lhes algumas sugestões e conselhos e indiquei-lhes outras pessoas com quem deveriam igualmente conversar. Era preciso que os fins muito meritórios do projecto fossem alcançados em condições sólidas, isto é, em pleno respeito pelas normas legais e técnicas em vigor. O projecto deveria desenrolar-se no estrito cumprimento do quadro legal vigente em Portugal para o sector do medicamento e, em particular, da farmácia e deveria ser garantido que não haveria qualquer atropelo das boas práticas de farmácia.

As ideias do grupo liderado pela Joana e pela Sara foram-se consolidando e robustecendo e, em Outubro de 2015, o mérito do seu projecto foi muito justamente reconhecido pela atribuição, à Cura+, do Prémio João Cordeiro na categoria de Responsabilidade Social, categoria essaque a Associação Nacional das Farmácias havia lançado pela primeira vez nesse ano. Tive o prazer de estar presente na sessão de entrega do prémio e senti uma grande satisfação por ver reconhecido o esforço e a persistência das minhas estudantes e, acima de tudo, por saber que o Prémio seria um estímulo muito importante para a concretização plena do seu projecto. Tal veio a acontecer e ainda em Outubro de 2015, fruto da visão e da determinação deste magnífico grupo de estudantes da FFUP, foi fundada a Associação Cura+, visando intervir civicamente na comunidade, na promoção da saúde e prevenção da doença e na educação para a saúde, desde logo junto de populações carenciadas.

Pessoalmente, acarinhei esta iniciativa desde o primeiro momento e tenho-a seguido com grande proximidade e interesse. Posso, pois, dizer que acompanhei a fase embrionária da Cura+ e continuo a acompanhar o seu crescimento e a viver, com satisfação, os sucessos das suas acções e as distinções que tem recebido, como os prémios atribuídos pela Fundação Manuel António da Mota, BPI e Câmara Municipal do Porto.

Realço, de um modo especial, o pioneirismo da Cura+, que lançou em Portugal a ideia de voluntariado no sector farmacêutico, enquanto intervenção cívica de promoção do acesso ao medicamento, tendo seguramente estimulado o surgimento de outros projectos neste domínio.

 

Porto com + Saúde

Após a formalização da sua constituição, a Associação Cura+ iniciou a actividade no terreno, tendo lançado o projecto que intitulou Porto com + Saúde, com o objectivo de garantir a agregados familiares carenciados a medicação de que necessitam. Este projecto tem sido concretizado pelos voluntários da Cura+ no centro histórico do Porto – zona socialmente degradada, com níveis elevados de exclusão e pobreza –, em estreita colaboração com o Centro Social Paroquial de Nossa Senhora da Vitória – obra social notavelmente liderada pelo Padre Jardim Moreira.

Presentemente, no âmbito do projecto Porto com + Saúde, os voluntários da Cura+ garantem a mais de 60 agregados familiares carenciados o acesso à medicação de quenecessitam. Para o efeito, a Cura+ estabeleceu parcerias com farmácias do centro do Porto, que se têm revelado cruciais para a sustentabilidade do projecto. E têm sabido garantir o envolvimento, como voluntários, de um número crescente de estudantes da Universidade do Porto, incluindo de outras faculdades para além da FFUP.

Reputo esta acção da Cura+ da maior importância. Um grupo de jovens estudantes universitários a proporcionar a estas pessoas a medicação a que, de outro modo, não teriam acesso é algo extraordinário. Especialmente, tendo em atenção que vivemos num mundo em que a indiferença é uma atitude comum nas sociedades e que, muitas vezes, os jovens se alheiam dos problemas sociais. Mas, no caso da Cura+, pelo contrário, o que constitui uma marca indelével dos jovens que a compõem é a recusa da indiferença. Estão determinados e decididos a intervir de forma activa na sociedade. E querem construir um mundo melhor. Esta utopia, que a Cura+ transforma em realidade para muitas famílias, é de facto assinalável. Por isso mesmo, o projecto Porto com + Saúde tem sido reconhecido e premiado por diferentes entidades, como recentemente sucedeu com a Câmara Municipal do Porto.

 

Polimedicação + Segura

Mas a Cura+ não se conforma com os bons resultados alcançados. Quer ir mais longe. Para além de continuar a expandir o programa Porto com + Saúde, abrangendo cada vez mais agregados familiares carenciados, os seus dirigentes identificaram outro problema, que afecta especialmente idosos polimedicados, no que respeita à adesão à terapêutica e ao uso correcto e responsável dos medicamentos. Para lhe fazer face, lançaram o programa intitulado Polimedicação + Segura, com o objectivo de intervirem neste âmbito junto de populações do centro histórico do Porto.

Este segundo programa vem, sem dúvida, complementar o primeiro, concorrendo em conjunto para a obtenção efectiva dos resultados clínicos pretendidos. Como estudantes de Ciências Farmacêuticas, os responsáveis da Cura+ sabem bem que não basta proporcionar medicamentos aos doentes. É muito importante garantir que estes os usam e, o que é fundamental, que os usam de modo correcto, seguro e racional.

Considero este programa da maior relevância, já que seguramente dele decorrerão ganhos em saúde e também ganhos económicos. Intervindo-se activamente a este nível junto dos doentes crónicos polimedicados garantir-se-á melhor que estejam permanentemente compensados, o que lhes permitirá viver melhor, durante mais tempo e com menores taxas de eventos agudos, que são altamente incapacitantes e até mortais e muito custosos no plano económico.

Através da utilização correcta da medicação, os hipertensos com a tensão arterial normalizada sofrem menos eventos cardio e cerebrovasculares, os diabéticos com a glicemia regularizada têm menor incidência de retinopatias e amputações, etc. É por isto que a intervenção da Cura+ no âmbito do programa Polimedicação + Segura se afigura muito relevante ao nível da Saúde Pública e também no plano económico. Para tal, os estudantes da Cura+ frequentam acções de formação específicas na FFUP, o que lhes permite intervir correctamente no domicílio dos doentes, em articulação com os farmacêuticos comunitários.

A este propósito, permitam-me que refira que, quando exerci as funções de bastonário da OF, sempre defendi a intervenção activa dos farmacêuticos comunitários nestas matérias, dada a sua capacidade técnica e científica e proximidade dos cidadãos, pois constituem os profissionais de saúde mais homogeneamente distribuídos no território Português. Considero esta intervenção vital para o sistema de saúde e não entendo por que razão ainda não foi adoptada pelo Serviço Nacional de Saúde. O actual Ministro da Saúde, no início do mandato, mostrou intenção em fazê-lo. E há cerca de um ano e meio fez aprovar um Decreto-lei que permite ao Ministério da Saúde contratualizar com as farmácias a prestação de serviços de intervenção em saúde pública enquadrados nas prioridades das políticas de saúde. Mas o que é certo é que, até ao momento, nada aconteceu e a Portaria prevista para a regulamentação deste assunto nunca viu a luz do dia.

 

Geração Saudável

É claro que para a Cura+ manter todo o nível de actividade que tenho vindo a descrever, não pode estar sozinha. Por isso, tem sabido estabelecer parcerias que contribuem para a sustentabilidade dos seus programas. Quando exerci as funções de bastonário da OF, tive o gosto de celebrar um protocolo de colaboração com a Cura+, que tem vindo a dar frutos. Os seus dirigentes haviam demonstrado uma capacidade de organização e de intervenção na comunidade que a Ordem tinha obrigação de apoiar. No âmbito desta pareceria, muito me apraz registar o facto de a Cura+ ter abraçado recentemente o projecto da OF intitulado Geração Saudável, alargando-o à região Norte de Portugal. Trata-se de um programa de promoção e educação para a saúde, que a Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da OF vem desenvolvendo há quase 6 anos e que nasceu durante o meu primeiro mandato na OF. Mas que, fruto do modelo organizacional da Ordem, estava confinado à região sul do País, com alguns eventos realizados na região centro. Contudo, graças à preciosa colaboração da Cura+, é agora possível vermos este magnífico projecto também na região norte, tendo o mesmo já sido iniciado junto de crianças e adolescentes de escolas dos 2º e 3º ciclos do Porto, com mensagens nas áreas do uso responsável do medicamento, alimentação saudável e prevenção da diabetes.

 

Responsabilidade social

Estamos habituados a ver as grandes empresas a realizarem acções de responsabilidade social. No sector farmacêutico, várias multinacionais desenvolvem políticas desta índole, por exemplo na área do VIH/SIDA. Durante os 10 anos em que me desloquei regularmente a Moçambique, em razão do curso de Farmácia que lá criei em 1997 e que constituiu o primeiro não só em Moçambique, mas em todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, contactei com acções de responsabilidade social promovidas por multinacionais farmacêuticas, em que estas disponibilizavam as suas tecnologias patenteadas no “primeiro mundo”, permitindo que doentes africanos pudessem ter acesso aos seus produtos inovadores.

Também em Portugal, temos assistimos a um incremento de projectos de responsabilidade social. No que respeita ao sector farmacêutico, faz todo o sentido que as empresas e as associações empresariais da fileira do medicamento desenvolvam este tipo de acções. Os medicamentos, em si mesmos, constituem um enorme ganho para a sociedade, contribuindo de modo decisivo para a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Por isso mesmo, considero que as empresas farmacêuticas são credoras do reconhecimento da sociedade. Mas, baseando-se o seu negócio no consumo de medicamentos por parte da população, considero também que devem desenvolver projectos úteis, quer de natureza social, quer de natureza ambiental, devolvendo assim à sociedade uma parte dos seus lucros.

A responsabilidade social configura um avanço civilizacional, em que os mais fortes não ficam indiferentes às necessidades dos demais. A Cura+, como já disse, sempre recusou a indiferença. Os estudantes que a integram não se confinam às paredes da universidade. Olham para o exterior, para a comunidade. E identificam problemas que querem enfrentar, retribuindo à sociedade o que esta lhes dá através da sua formação académica. Por isso, vejo a Cura+ também como um projeto de responsabilidade social. Gosto particularmente de realçar este seu carácter invulgar. Admito, aliás, que a Cura+ tenha constituído um bom exemplo para outras entidades e instituições fazerem mais e melhor em termos de responsabilidade social e serem mais proactivas na sua intervenção na sociedade, em particular junto dos cidadãos mais carenciados.

Em pleno século XXI, não podemos ficar indiferentes perante situações em que portugueses, por incapacidade económica, não têm acesso à medicação de que necessitam, não obstante a comparticipação financeira assegurada pelo Estado. Apesar de em Portugal cultivarmos princípios de justiça, inclusão e solidariedade, verifica-se, muitas vezes, que franjas da população mais carenciada ficam para trás, são esquecidas e acabam excluídas. Entendo que nos compete a todos, individual e colectivamente, combater este flagelo. A dignidade da pessoa humana deve ser o valor supremo numa sociedade que queremos cada vez mais justa e inclusiva. À sua escala, a Cura+, através do projecto Porto com + Saúde, dá contributos importantes para enfrentar este problema. São projetos como este que ajudam a atenuar as anomalias sociais e contribuem proactivamente para construir sociedades mais justas e menos desiguais.

 

Desenvolvimento sustentado

A Associação Cura+ tem sido também uma escola extraordinária para os estudantes que por lá têm passado, desde os que a criaram e os que a têm dirigido, até aos que, como voluntários, ajudam a concretizar os seus projectos. Seguramente, a todos confere uma experiência rica, que lhes é muito útil durante a sua vida profissional. Mas também a profissão muito ganha ao acolher no seu seio jovens farmacêuticos tão dinâmicos e empreendedores e já com assinaláveis provas dadas em matéria de organização e concretização de projectos na comunidade.

Presentemente, estão em funções na Cura+ os terceiros Órgãos Sociais desde a sua fundação em 2015. A passagem do testemunho entre as direcções tem sido verdadeiramente extraordinária, o que se reveste da maior importância para o desenvolvimento sustentado da Associação. Além disso, a Cura+ continua a saber atrair novos voluntários para a concretização dos seus projectos no terreno, agregando e cativando permanentemente novos estudantes, o que constitui também um importante factor de sustentabilidade da organização, que assim continua a prosseguir os seus objectivos de lutar por um futuro melhor e por uma sociedade mais justa e inclusiva e menos desigual.